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Transfigurações da Paisagem (metamorfose III e IV)

 
3 segundos são 3 segundos
A fotografia de Adelino Marques, em Metamorfose de uma paisagem III e IV, captura um espaço de limites difusos, que se constitui como signo ou índice de profunda melancolia. O tempo, a sua matéria prima, fica suspenso nos 3 segundos da exposição que o fotógrafo elegeu.
Tentaremos interrogar hipóteses de significação deste trabalho, nas suas dimensões poéticas e simbólicas, uma imediata inspiração que decorre das leituras possíveis das imagens. Nos limites do que vemos, no limiar do que não vemos. No lugar de perspetiva que cada olhar individual construirá.
 
Zénon ! Cruel Zénon ! Zénon d’Élée !
M’as-tu percé de cette flèche ailée
Qui vibre, vole, et qui ne vole pas !
(...)
Paul Valéry, Cimitière marin
 
Lembremos Zenão de Eleia, o filósofo da Magna Grécia. Argumentou o paradoxo do movimento, um absurdo que, desde os antigos, nos persegue. O arqueiro lançou uma flecha. Move-se? Ela, na verdade, não se move, está parada, capturada num instante bífido. Para ele, não terá havido nunca movimento, apenas infinita fragmentação da flecha.
É e pode não ser. Ilusão, de que também se faz a matéria metamórfica da fotografia.
 
3 segundos são 3 segundos
De exposição à luz. Captada e transformada em código, a antiga luz das estrelas, memória do tempo do universo. E passa num relâmpago, a janela em movimento, pela estrada, pelos montes, pelas pontes e rios, que nunca são certos, que jamais serão consistentes. Contornos difusos, como os das telas com as impressões do sol poente, os nenúfares ou o fumo das locomotivas, dos pintores oitocentistas da moderna Paris.
Porém, a ilusão do movimento, assombra todas elas.
Flecha em eterna fragmentação ou tempo precipitado, infinitamente?
 
 
Dália Dias, 2025

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​“Viajar em auto é correr mundo a cavalo n'um relâmpago.

Cousas, pessoas, paisagens, vilas, logarejos, passam por nós, n'uma tal velocidade, que as impressões recebidas continuam em nossa memoria a sua doida cavalgada, n'uma confusão turbilhonante. A distância que as separa e lhes dá perspectiva, é eliminada pelo movimento que as anima; e as suas aparencias quasi se fundem n'um todo cahotico e disparatado, que é a fonte caricatural da moderna pintura futurista.

A visão vagarosa demora-se de mais no vulto corporeo das cousas, no fisionomico recorte que as define e individualisa; é uma visão materialista, de analise, consagrando esta ou aquela forma, isolando-as n'uma especie de egoismo pessoal.

A realidade panoramica do mundo é uma função da nossa velocidade. A mesma paisagem tem varias fisionomias, conforme se mostra ao cavaleiro, ao automobilista, etc. Á paisagem extatica do peão, á paisagem vagarosa ainda da liteira e da diligencia, sucedeu a paisagem veloz do chauffeur, a paisagem-relampago que deslumbra e foge... E assim, á pintura inerte e definida, ás tintas extaticas, suave ou, antes, morosamente nuançadas, sucede a pintura dinamica, em esbôço, de tons violentos que se misturam e correm. Eis porque a pintura futurista, quebrando a velha harmonia das cousas, nos parece absurda e nos offende.

Mas como não gosto de maguar o leitor; e levado por esta cobardia sociavel que nos faz acatar o estabelecido, procurarei traduzir, em velha linguagem de liteira, um vertiginoso e futurista passeio de automovel, desde a minha casa sobre o Tamega á antiga casa do Mosteiro, nos arredores de Arganil."

A Beira (num relâmpago), Teixeira de Pascoaes
1916

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“(...) Temos de pôr na luz o que se passa no escuro.
De resto, imagino que os sonhos têm um desenho mais claro, mais lógico, talvez, do que esse que eles nos deixam na memória.

Imponderáveis, como hão-de marcar profundamente as suas pegadas nos caminhos? Mas, sendo irreais, dão-nos a impressão da realidade. É nosso dever, portanto, restitui-los um pouco à presumível nitidez da sua representação originária.

Mas a minha consciencia não descansa.
Trabalhei a favor da verdade ou da mentira? Retoquei o quadro, ou falsifiquei-o? E retocar não será falsificar? Que é a arte?

Suponhamos que a Lua era o único astro alumiante; e que um poeta se lembrava de imaginar um Sol e as cores e as formas que uma paisagem tomaria à sua luz. Resultaria falsa a paisagem?
Pois bem: esta falsidade é a da arte."

                                                                  
Duplo Passeio, Teixeira de Pascoaes
​1942




Comentários:
Erros meus, má fortuna, amor ardente...: EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Transfigurações da Paisagem” | Adelino Marques

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Exposições "Transfigurações da Paisagem"
 fotografia de Adelino Marques e textos de Dália Dias

2025

Exposição e apresentação de livro - Galeria da Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço - Guarda
​4ª colectiva associados do iNstantes - Casa da Cultura, Avintes


​2024
Colectiva de Fotografia - aqui, liberdade -  Galeria Fotográfica do Centro de Arte de São João da Madeira
Colectiva "Paisagens Efémeras" - Galeria Geraldes da Silva, Porto


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