Strelitzia reginae
Senescentia et mors foliorum ac florum
Senescentia et mors foliorum ac florum
O tempo e a morte
Haverá melhor forma de registar o tempo, a passagem do tempo, do que fotografar a morte?
A fotografia é um excelente meio, talvez o melhor, para tentar contornar a finitude, das pessoas e das coisas, forjando em papel, num ficheiro ou numa chapa, uma imortalidade fixada, como um crisol dos tempos onde se fundem passado e presente. E, nem a evolução e a pressa dos novos aparatos e processos fotográficos, nem a propalada inteligência artificial e as imagens que engendra, vieram ainda alterar esta sina.
Na época Vitoriana, no final do séc. XIX, surgiu e terminou rapidamente, a Fotografia Post Mortem. Muitas famílias fizeram-se fotografar com os seus que morriam, antes de serem sepultados, em que estes eram retratados ao lado ou junto dos vivos. Acredito que esta prática terá surgido primeiro pela facilidade de representação que a fotografia revolucionou, mas também, pela sua inegável capacidade de fixar momentos, tornando-se um auxiliar da elaboração das memórias familiares, de que a Kodak se apropriou brilhantemente, na sua famosa campanha publicitária: "Para mais tarde recordar". Mas, terá sido a sua rapidez que facilitou melhor essa ambivalência entre celebrar a vida e respeitar a morte, eventualmente exorcizando-a pela imagem.
Era afinal uma nova forma de tentar a imortalidade.
Mais tarde, em sequência e na consequência de todos os avanços da medicina e da higiene, que resultou numa diminuição significativa da mortalidade e num aumento da longevidade, somado à categorização dessa prática fotográfica como se fosse apenas uma evidente e insuportável morbidez, a fotografia pós-morte foi esquecida ou abandonada.
Não se livrando desse seu acaso ou sorte, a fotografia nunca deixará de carregar o fardo de, ao evocar memórias e as suas antinomias, remeter o nosso olhar, que igniza ou espoleta as putativas introspeções sobre a vida, o amor e a morte.
Adelino Marques escolheu registar, quase milimetricamente, como quem cataloga a existência, a senescência de uma estrelícia, curiosamente uma das flores mais apreciadas pela sua resistência e durabilidade, aquela em que, provavelmente, a decomposição demoraria mais tempo.
O facto de as ter sempre à mão, no seu jardim, poderia levar-nos a duvidar que foi escolhida criteriosamente, dada a dualidade entre o fenecer rapidamente, de que a maioria das flores padece e o demorar muito mais do que é normal.
Poderá ter feito um herbário, enquanto jovem estudante, exercício que praticamente desapareceu do ensino, onde recolheu e preservou exemplares de espécies vegetais, como quem as livrava de um fim, elevando-as à eternidade entre folhas de papel.
Talvez a pensar nisso aqui procurou ver, analisar e fotografar a essência do tempo, a sua passagem e inexorabilidade.
Neste desígnio teve de se demorar lentamente sobre todo o processo senescente, que foi meticulosamente iluminado, fotografado e editado e no resultado estabeleceu uma ligação, ou relação, entre a lentidão de uma estrelícia em decomposição e a fragilidade da nossa existência.
Num manifesto confronto invencível da vida com a morte.
De facto, Adelino não fotografou apenas a senescência da estrelícia, a morte de uma flor, foi muito mais alto e mais fundo e construiu uma metáfora da condição humana.
António Martins Teixeira, 2025
Haverá melhor forma de registar o tempo, a passagem do tempo, do que fotografar a morte?
A fotografia é um excelente meio, talvez o melhor, para tentar contornar a finitude, das pessoas e das coisas, forjando em papel, num ficheiro ou numa chapa, uma imortalidade fixada, como um crisol dos tempos onde se fundem passado e presente. E, nem a evolução e a pressa dos novos aparatos e processos fotográficos, nem a propalada inteligência artificial e as imagens que engendra, vieram ainda alterar esta sina.
Na época Vitoriana, no final do séc. XIX, surgiu e terminou rapidamente, a Fotografia Post Mortem. Muitas famílias fizeram-se fotografar com os seus que morriam, antes de serem sepultados, em que estes eram retratados ao lado ou junto dos vivos. Acredito que esta prática terá surgido primeiro pela facilidade de representação que a fotografia revolucionou, mas também, pela sua inegável capacidade de fixar momentos, tornando-se um auxiliar da elaboração das memórias familiares, de que a Kodak se apropriou brilhantemente, na sua famosa campanha publicitária: "Para mais tarde recordar". Mas, terá sido a sua rapidez que facilitou melhor essa ambivalência entre celebrar a vida e respeitar a morte, eventualmente exorcizando-a pela imagem.
Era afinal uma nova forma de tentar a imortalidade.
Mais tarde, em sequência e na consequência de todos os avanços da medicina e da higiene, que resultou numa diminuição significativa da mortalidade e num aumento da longevidade, somado à categorização dessa prática fotográfica como se fosse apenas uma evidente e insuportável morbidez, a fotografia pós-morte foi esquecida ou abandonada.
Não se livrando desse seu acaso ou sorte, a fotografia nunca deixará de carregar o fardo de, ao evocar memórias e as suas antinomias, remeter o nosso olhar, que igniza ou espoleta as putativas introspeções sobre a vida, o amor e a morte.
Adelino Marques escolheu registar, quase milimetricamente, como quem cataloga a existência, a senescência de uma estrelícia, curiosamente uma das flores mais apreciadas pela sua resistência e durabilidade, aquela em que, provavelmente, a decomposição demoraria mais tempo.
O facto de as ter sempre à mão, no seu jardim, poderia levar-nos a duvidar que foi escolhida criteriosamente, dada a dualidade entre o fenecer rapidamente, de que a maioria das flores padece e o demorar muito mais do que é normal.
Poderá ter feito um herbário, enquanto jovem estudante, exercício que praticamente desapareceu do ensino, onde recolheu e preservou exemplares de espécies vegetais, como quem as livrava de um fim, elevando-as à eternidade entre folhas de papel.
Talvez a pensar nisso aqui procurou ver, analisar e fotografar a essência do tempo, a sua passagem e inexorabilidade.
Neste desígnio teve de se demorar lentamente sobre todo o processo senescente, que foi meticulosamente iluminado, fotografado e editado e no resultado estabeleceu uma ligação, ou relação, entre a lentidão de uma estrelícia em decomposição e a fragilidade da nossa existência.
Num manifesto confronto invencível da vida com a morte.
De facto, Adelino não fotografou apenas a senescência da estrelícia, a morte de uma flor, foi muito mais alto e mais fundo e construiu uma metáfora da condição humana.
António Martins Teixeira, 2025
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ADELINO MARQUES, REGINA STRELITZIA, SENESCIT ET MORS FOLIIS ET FLORIBUS, 2022 | FASCÍNIO DA FOTOGRAFIA
Exposições Strelitzia reginae - Senescentia et mors foliorum ac florum
2026
Auditório Municipal de Vila do Conde
2025
BC Galeria - Porto
2024
Centro Mário Cláudio - Venade, Paredes de Coura
Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (Biblioteca)
2023
iNstantes - Casa da Cultura - Avintes
2022
MIP_OFF(Mês da Imagem do Porto) Rua de Miraflor - Porto
ADELINO MARQUES, REGINA STRELITZIA, SENESCIT ET MORS FOLIIS ET FLORIBUS, 2022 | FASCÍNIO DA FOTOGRAFIA
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2026
Auditório Municipal de Vila do Conde
2025
BC Galeria - Porto
2024
Centro Mário Cláudio - Venade, Paredes de Coura
Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (Biblioteca)
2023
iNstantes - Casa da Cultura - Avintes
2022
MIP_OFF(Mês da Imagem do Porto) Rua de Miraflor - Porto











