A PRAIA DE MOLEDO NO ÁLBUM DE POSTAIS DO ZILIÃO
UM DIÁRIO É UMA INFINITA TRISTEZA UM POSTAL UMA INTENSA ALEGRIA
Um postal é um coração carregado de palavras, provavelmente carregado de palavras e silêncio que chegam para procurar a claridade. Uma faúlha onde respiramos à distância outros lábios, a sede de um rosto, um labirinto líquido onde adivinhamos os caminhos e as sombras de passos que atravessam bosques e ruas a que não pertencem.
Um postal é uma fonte inesgotável, uma ruga de tempo aberta pela ventania ao pólen e às sementes, um pão sobre a mesa onde acolhemos a mão ou um pensamento. Uma vertigem de nomes e frutos cobrindo devagar a noite submersa da memória. Entre o sono e a morte o que se ilumina a enlaçar são os segredos mais secretos do destino, como nas cartas e fotografias. Ou nas algibeiras mais íntimas.
Os postais de Adelino Marques são uma oportunidade para complementar o que ficou e sempre fica incompleto, uma ideia de memória, um estudo sobre a intemporalidade vivificada dia a dia, instante a instante. Reportam-nos lugares, pessoas, objectos, restos de árvores e sargaço, os barcos da ausência, o que resta das tarefas, o mar e o céu como paisagem em gestão mutável pelo fotógrafo em conflito insuspeito com os observadores contemplativos do seu lazer em algazarra.
O que observamos é difuso, uma convocatória que principia na ironia do que sendo contemporâneo é passado e ancestral. Cada observador contempla o seu próprio rosto carregado de lembranças e ventos, reconhece-se no ondular ou na rudeza das ondas que se espraiam na destreza dos nadadores e surfistas que o seu olhar alcança vagaroso entre a areia e a espuma onde as aves cravam bicos e garras.
Enquanto Adelino Marques, um intimista compulsivo, retrata a subtileza do seu tempo em confronto, repetido e estratégico, a perpassar o que se une e oscila oficinal como se longínquos fossem os arados e a medida do tempo. Ou moribundo fosse o registo dos instantes em tumulto que um olhar acumula braviamente a cicatrizar sem destino uma febre sem descanso. Os postais alongam a intemporalidade dos momentos que partilhamos como se de memórias reais se tratassem. Adelino Marques acende e espalha sem piedade a duração do abandono, o que larva incógnito sem dor, a fugacidade dos corpos sem trincheiras, num propósito sóbrio sem vencidos, sem ásperos brilhos, dessedentando o que nos é familiar, sem cegueiras onde esconder a morte ou a deportação da luz que o fascina e com a qual reflete, sem presunção, sobre hábitos estranhos e regras indispensáveis.
Num caleidoscópio que pesponta o horizonte em mutação permanente. Num sortilégio desmedido sem suor, apenas com a rede fecunda de um acolhimento sem voz, como quem escuta um rumor infindo a perseguir.
Num registo sem refúgio, mas com as marcas do tempo sem angústia a decalcar sem vazios secretos. Sempre a vislumbrar o ínfimo. O que é essencial. Sem desatenção, numa busca sem feridas do que é diáfano, insonoro, mas ilustrador de uma linguagem expressiva e da sua essência íntima que é, desde há muito, expressão da fotografia que Adelino Marques nos dá a ver em exposições e livros como pretexto dessa comunicação seminal que o olhar sempre contemplou interrogativo e profundo na tentativa de encontrar o caminho purificador do que sendo espiritual é comunicável.
Não sendo o olhar um território desértico nem vazio, mas um espaço de linguagem como experiência, um lugar mágico, transfronteiriço e partilhável, um lugar com tempo de revelação e mimético, em osmose metafísica com as possibilidades da experiência e da contemplação em tradução permanente através de qualquer meio técnico e registo, os postais de Adelino Marques são, não apenas a consequência de um registo mecânico a explorar, mas, substancialmente, o resultado e expressão de uma linguagem frondosa, expressivamente tentacular, humana nas suas metamorfoses e exuberância. São, podemos afirmar, um lugar de leitura onde principia a luz sem o odor da morte.
São estes postais, em doação, um caldo messiânico, operativo, inspirado, romântico, não resignado, mas sagrado do sentido da existência humana nas suas materialidades e liberalidades, e, neste caso concreto e belo, os miríades generosos dos seus postais são a transmissão da evidência da paisagem humana como história sem tempo agostiniano onde imprimimos deambulante um olhar já sem corpo.
Adelino Marques desenha e partilha e encena o que o deslumbra em sequências prisioneiras da sua nudez incomensurável. Doa à decifração, com limpidez, o fulgor de uma chama, tantas vezes ausente, com que possamos iluminar, pela noite dos dias, o nosso olhar, ou o refúgio na pedra donde brota a água da nossa sede.
Adelino Marques é um agrimensor que suspende no movimento do ar a silenciosa melancolia das mãos.
Jorge Velhote
2025








